O que é mais terrível do que a morte de uma criança? Nada. Os congoleses nascem em condições de extrema precariedade e morrem em massa antes dos cinco anos de idade. Tentamos abordar essa realidade a partir do estado concreto do Centro de Saúde do Distrito Sanitário de Goma Tsé-Tsé, nos arredores de Brazzaville. Mal começamos…
Segundo o Banco Mundial, a população da República do Congo é jovem e pobre. 47% dos seus 5 milhões de habitantes têm menos de 18 anos, e 35% da população vivia abaixo da linha da pobreza em 2016.
É um prédio minimamente renovado, mas vazio, que se destaca da savana ao redor. O mato é alto e uma ambulância abandonada está parada em frente ao centro de saúde. O distrito cobre uma área com 2.271 habitantes, atendida por apenas três profissionais de saúde: um enfermeiro diplomado pelo Estado, um ATS (Agente Técnico de Saúde) e um auxiliar — sem nenhum médico residente.
Segundo a Unicef, as principais causas de mortalidade neonatal são o parto prematuro (44‰), asfixia ou insuficiência respiratória (29%) e infecções (27%). Já as causas predominantes de mortalidade antes dos cinco anos de idade são a malária (54%), as infecções respiratórias agudas (18%) e a diarreia (17%). O ambiente em que vivem os congoleses — insalubre, sem água potável nem eletricidade — é, sem dúvida, a causa primária dessas tragédias. O centro de saúde não possui eletricidade nem gerador.
A visita ao centro é reveladora: a cama de parto é espartana, há uma farmácia improvisada, mas o estado de conservação dos medicamentos é alarmante. O centro está vazio — ou parece ter sido esvaziado às pressas para nossa visita. Há apenas uma cama, e esta em estado deplorável. O ATS que nos guia confessa que os doentes dormem no chão, sobre esteiras, por falta de leitos. Apesar da malária causar até 54% das mortes infantis, não há sequer uma mosquiteira no centro — e estamos em uma zona onde essa doença é endêmica.
As mulheres congolesas dão à luz muito jovens. A educação sexual é inexistente, e o planejamento familiar está apenas engatinhando. O aborto permanece proibido e é um tabu, embora praticado de forma semiclandestina em condições sanitárias altamente questionáveis. De acordo com o MICS Congo 2014-2015, as adolescentes entre 15 e 19 anos são mais afetadas que as mulheres mais velhas pela mortalidade materna. Entre 2007 e 2013, elas representaram 39% de todas as mortes de meninas dessa faixa etária.
Assim, duas a cada cinco adolescentes que morreram nos sete anos anteriores à pesquisa MICS perderam a vida por causas maternas — contra uma mulher mais velha em cada cinco. Segundo o estudo, as mães adolescentes são as que correm maior risco de morte no parto.
Ainda que as estatísticas oficiais apontem uma ligeira queda na mortalidade infantil (de 68‰ em 2011 para 52‰ em 2015), isso não foi suficiente para alcançar o objetivo dos ODM (39‰). Neste país de falsificações — como mostrou o escândalo das estatísticas ocultadas da dívida — é prudente não tomar os números oficiais ao pé da letra. As mortes de crianças nas zonas rurais são pouco ou nada registradas. Cresce o número de menores de cinco anos sem registro civil, ou seja, sem existência legal. A burocracia tende a querer proteger a imagem do regime; uma alta taxa de mortalidade infantil é uma péssima propaganda a evitar.
Ainda segundo o MICS Congo 2014-2015, a cada 1.000 crianças nascidas:
– 52 morrem antes de completar cinco anos,
– 36 antes do primeiro aniversário (21 entre 0 e 28 dias, 15 entre 1 e 12 meses),
– e 17 entre 12 e 59 meses.
De acordo com a Unicef, a insegurança alimentar persiste, com mais de 26% das crianças com menos de cinco anos sofrendo de desnutrição crônica. A desnutrição continua sendo uma causa subjacente importante de mortalidade, e o atraso no crescimento atinge mais de uma em cada cinco crianças.
Com uma taxa de natalidade de 35‰ contra uma taxa de mortalidade infantil de 56,40‰ em 2016, não é exagero falar de gerações perdidas de congoleses.
Três profissionais de saúde dividem uma cadeira e uma mesa para atender uma área de 2.271 habitantes. Os congoleses nascem na mais vergonhosa precariedade. Não há certezas, por isso estamos propondo uma cooperativa de mulheres de Goma Tsé-Tsé para melhorar as condições de parto.
A mobilização de todos deve substituir o desânimo e a apatia. Dar à luz é o maior dos dons; é inaceitável que os congoleses continuem a fazê-lo em condições tão indignas.








