Teodoro Nguema Obiang, apelidado de Teodorín, é o queridinho das capas dos tablóides: dono de múltiplas mansões ao redor do mundo, dezenas de carros de luxo, uma moto digna do filme Tron, namoros com uma modelo dinamarquesa ou uma rapper americana, festas em iates com celebridades, exibindo sua riqueza sem pudor.
Teodorín, quem é ele?

Teodorín nasceu em 1968. É filho do presidente Teodoro Obiang Nguema Mbasogo e de sua primeira esposa.
Teodorín acumula títulos. É vice-presidente desde 2016, com responsabilidades sobre o exército e a segurança nacional. Antes disso, foi segundo vice-presidente (2012-2016), ministro da agricultura e foi promovido a major-general do exército sem possuir credenciais militares significativas.
No papel, seu salário anual é de US$ 80.000 — valor claramente insuficiente para bancar o estilo de vida extravagante que exibe em seu perfil no Instagram.
O mundo contra Teodorín

Embora o “menino de ouro” não esconda sua riqueza, é por meio de processos judiciais internacionais que se revela a real extensão do saque.

Em 2014, o Departamento de Justiça dos EUA apontou que o então segundo vice-presidente da Guiné Equatorial havia acumulado ativos no valor de US$ 300 milhões. Entre eles estavam objetos pessoais de Michael Jackson (como luvas e meias cobertas de diamantes), carros de luxo, uma mansão em Malibu e um jato particular. No entanto, o acordo firmado com Teodoro Nguema Obiang resultou na devolução de apenas US$ 30 milhões.
“Por meio de desvios implacáveis e extorsão, o vice-presidente Nguema Obiang saqueou sem vergonha seu governo e extorquiu empresas em seu país para financiar seu estilo de vida luxuoso, enquanto muitos de seus concidadãos viviam na extrema pobreza.”
— Procurador-Adjunto do Departamento de Justiça dos EUA

Na França, Nguema Obiang foi condenado em 2017 por lavagem de dinheiro e outros crimes de corrupção, recebendo uma pena de três anos de prisão suspensa e uma multa de US$ 35 milhões. Durante o julgamento, foram apreendidos bens no valor de €174 milhões, incluindo carros de luxo. Detalhes de seus gastos exorbitantes também vieram à tona: uma conta de €587.000 em cinco anos no hotel Crillon, €18,3 milhões gastos em dois dias na casa de leilões Christie’s, além de relógios Cartier, Piaget e Vacheron no valor de mais de €700.000. Em sua mansão na exclusiva Avenue Foch, em Paris, foram encontrados mais de 60 pares de sapatos feitos sob medida e de marcas de luxo. A propriedade de 4.500 m², comprada por €25 milhões, contava com mais de 100 cômodos, um salão de cabeleireiro e uma boate particular.

Em 2017, no âmbito de uma investigação suíça sobre lavagem de dinheiro e má gestão de fundos públicos, um tribunal ordenou o confisco de um iate avaliado em US$ 120 milhões. Posteriormente, um acordo permitiu que Obiang recuperasse o iate em troca da entrega de mais de 25 carros de luxo, leiloados publicamente em Genebra em setembro de 2019, arrecadando mais de US$ 27 milhões. Entre os veículos estavam um Lamborghini Veneno Roadster — um dos nove existentes no mundo — e uma Ferrari “LaFerrari” inspirada na Fórmula 1 e GT.
Em 2018, no Brasil, a Polícia Federal apreendeu dinheiro em espécie e uma coleção de relógios de luxo no valor de US$ 16 milhões. O vice-presidente não declarou os bens na alfândega, como exigido. Além disso, foi multado em US$ 88.000 por reformas ilegais em sua recém-adquirida cobertura em São Paulo, cujo valor não foi divulgado.
Em 2019, um juiz sul-africano ordenou o leilão de seus bens no valor de US$ 2,2 milhões. Um empresário o acusou de detenção ilegal após uma disputa comercial em Malabo. Como parte do processo, seu apartamento de luxo foi confiscado.
Ao todo, mais de US$ 700 milhões foram desviados da Guiné Equatorial pelo vice-presidente para aquisição de bens de luxo, carros e mansões, enquanto dois terços da população do país vivem na pobreza. Esses US$ 700 milhões representam um terço do orçamento anual do país em 2017 — quantia suficiente para financiar a educação por quase oito anos ou cobrir quase uma década do orçamento nacional de saúde.
A árvore que esconde a floresta
Enquanto os holofotes estão voltados para o “menino de ouro” da família, ele é apenas a ponta do iceberg de um sistema profundamente corrupto que envolve seus parentes e diversos cúmplices.

Acima de tudo, trata-se de uma família no poder. Teodoro Obiang, o pai, tomou o poder em 3 de agosto de 1979 por meio de um golpe sangrento contra seu tio, governando o país com mão de ferro desde então. Foi reeleito pela quinta vez em 2016 com 93,5% dos votos, tornando-se o segundo presidente com mais tempo no cargo no mundo, com uma fortuna estimada em US$ 600 milhões.
Grande parte dessa riqueza vem do petróleo extraído no país desde os anos 1990. Investigações dos EUA revelaram que empresas petrolíferas transferiam recursos diretamente para as contas pessoais do presidente e sua família. Além disso, empresas de propriedade da família controlam setores-chave da economia.
Teodorín é considerado o provável sucessor de seu pai, com o único possível rival sendo seu meio-irmão Gabriel Mbega Obiang, ministro do petróleo por muitos anos. Disputas internas entre membros da elite dominante, que controla pilares essenciais da economia como as companhias nacionais de petróleo, ocorrem às custas de uma população silenciada.
Mas há também os facilitadores — aqueles que ajudaram a família Obiang a desviar os recursos do país e ocultar os lucros no exterior.
O Senado dos EUA deixou claro que multinacionais, banqueiros e intermediários altamente lucrativos na Europa e nos EUA compartilham a responsabilidade pela drenagem dos recursos do país. Altos funcionários do governo estão envolvidos em casos semelhantes, mas passam despercebidos. O relatório do Senado sobre o escândalo do Riggs Bank em 2014 recomendou que as empresas de petróleo divulgassem todos os pagamentos feitos ao líder e sua família. Um relatório de 2017 indicou que “fundos suspeitos foram transferidos para os EUA via Wachovia e Citibank”. O juiz francês que condenou Teodorín em 2017 criticou severamente os bancos Société Générale e o Banco da França por terem facilitado a movimentação de dinheiro público para contas francesas.
Nada para o povo
Enquanto uma rede internacional lucra com os abusos da família Obiang, os equato-guineenses vivem em extrema pobreza.
Mais de US$ 700 milhões estão depositados em capitais pelo mundo, mas uma menina nascida hoje na Guiné Equatorial corre alto risco de ser uma das 9% das crianças que morrem antes dos 5 anos — uma das maiores taxas do mundo. Se sobreviver, apenas uma em cada quatro escolas que frequentar terá acesso à água potável.
Se engravidar enquanto estuda, o governo a proibirá de continuar a frequentar a escola, condenando-a à exclusão. Embora 9 em cada 10 crianças saibam ler, a qualidade do ensino é tão precária que poucas conseguem chegar à universidade — menos de 15% o fazem. Se, contra todas as adversidades, conseguir um cargo inferior na administração pública, seu salário não passará dos US$ 200 por mês.
Depois de toda essa luta, uma mulher equato-guineense deveria se considerar sortuda se chegasse aos 57 anos — expectativa média de vida para mulheres. E se desejar denunciar abusos ou se sentir discriminada, pode acabar presa, torturada ou ver sua família sofrer retaliações. A Guiné Equatorial tem um histórico de direitos humanos deplorável, com execuções extrajudiciais, repressão à liberdade de expressão e tortura, conforme relatado pela Comissão de Direitos Humanos da ONU e pela American Bar Association.
Essa é a história que não se conta quando as manchetes falam apenas do luxo de Teodorín. Apesar das inúmeras condenações internacionais, os cidadãos da Guiné Equatorial continuam esperando por água potável, educação de qualidade e outros serviços básicos.
Teodorín não é um dos ¾ dos equato-guineenses vivendo na miséria. Mas toda vez que ele posta seu novo item de luxo ou viagem extravagante nas redes sociais, é o povo quem paga. E são cerca de 92 mil seguidores que aplaudem.








