Descobrir petróleo deveria ser uma bênção quando se está no fundo dos indicadores de desenvolvimento humano. Mas não no caso do Chade. Desde a independência, o país sem litoral tem convivido com instabilidade política e conflitos regionais. Nesse contexto, o presidente Idriss Déby e sua família precisaram de dinheiro para garantir a subserviência de uma rede de facilitadores.
Petróleo contra a pobreza

A produção de petróleo começou em 2003. Desde então, passou a representar 73% das receitas do Estado e 90% das exportações — cerca de US$ 12 bilhões em 17 anos. Esse novo fluxo de dinheiro deveria ter aliviado a pobreza dos chadianos. Mas não foi isso que aconteceu.
Nas áreas hoje produtoras de petróleo, agricultores de manga perderam sua renda regular. Para eles, o petróleo significou menos dinheiro. De acordo com uma lei de 1999, 80% das receitas do petróleo deveriam ser destinadas a infraestrutura e serviços, bem como a um fundo fiduciário para as gerações futuras.
Mas essas disposições foram feitas antes das mais recentes quedas drásticas no preço do petróleo. Agora, o governo é obrigado a usar toda a receita petrolífera para pagar dívidas. O que sobra são apenas migalhas para o desenvolvimento do país.
Todas as promessas feitas quando o “ouro negro” foi descoberto foram obliteradas. E os cidadãos não viram nenhum impacto positivo em suas vidas cotidianas. Mas afinal, para onde foi todo esse dinheiro?
Déby: a rocha em um mar de instabilidade

Idriss Déby Itno foi um homem forte em uma região instável: ao norte, a Líbia em guerra; a leste, Darfur ainda enfrenta conflitos enquanto o Sudão passa por uma difícil transição; ao sudoeste, a insurgência do Boko Haram cria turbulência. Em todos esses cenários, N’Djamena desempenha um papel crucial.
A influência do Chade vai além da vizinhança imediata: seu exército foi essencial para a Operação Serval, liderada pela França, que recapturou o norte do Mali das mãos dos insurgentes islamistas. O país também foi peça-chave na Operação Barkhane, na Missão da ONU no Mali e na iniciativa do G-5 Sahel, voltada à estabilização regional.
Déby se tornou um “bom cidadão do mundo”, sendo considerado um fator de estabilidade numa região volátil — embora sua posição dentro do próprio país fosse fraca, e seu legado bastante contestado. Em 7 de fevereiro de 2019, Déby agradeceu à França por barrar uma coluna de insurgentes a caminho da capital. Não foi a primeira vez que a ex-potência colonial, que ainda mantém uma base militar no Chade, se envolveu nos assuntos internos do país. Em 2005, um golpe foi evitado com ajuda francesa. Em 2008, rebeldes mais uma vez foram impedidos de chegar à capital pelas forças francesas.
Em nome da preservação de uma estabilidade frágil, consolidou-se um regime forte em N’Djamena. Desde que chegou à capital em 1980, ao lado do ditador Hissène Habré, Déby nunca tirou os olhos do poder.
Em 1990, com apoio dos serviços secretos franceses, Déby se tornou presidente de um país doente, depois de uma década de ditadura sangrenta que matou mais de 40 mil chadianos.
Durante a Guerra Fria, a comunidade internacional — principalmente França e Estados Unidos — deu carta branca ao regime de Habré, visto como um contrapeso ao líder líbio Muammar Gaddafi. Quando o regime se tornou insustentável, Déby assumiu como o novo rosto da estabilidade, impondo seu clã e controle absoluto sobre as forças de segurança.
Um negócio de família

Déby foi reeleito em 2016, mas os seis candidatos da oposição rejeitaram os resultados. Desde os anos 1990, o presidente blindou o regime, nomeando parentes e aliados para todas as esferas do poder, inclusive sua esposa. Mas para manter-se no poder, o regime precisa de recursos para alimentar sua rede de apoio.
Segundo os Papéis do Panamá, o clã Déby canalizou US$ 10,76 bilhões de fundos públicos para paraísos fiscais.
A lista de beneficiários é longa e as disputas internas são frequentes. Quando um dos filhos do presidente morreu em Paris, sob circunstâncias pouco claras e apesar de uma proibição de viajar, um confronto explodiu durante o funeral — reflexo das tensões familiares.
Enquanto a família controla os cofres do Estado, quase nenhum recurso público é destinado aos serviços para a população chadiana. Quatro parentes de Déby concentram a maior fatia do bolo: Hinda Déby Itno, Mahamat Zene Hissein Bourma, Ibrahim Hissein Bourma e Salay Déby.
Família e empregos de Deby
| NOME COMPLETO | FUNÇÃO |
|---|---|
| Zakaria Idriss Déby | Embaixador nos Emirados Árabes Unidos |
| General Mahamat Idriss Déby | Diretor-Geral do Serviço de Segurança das Instituições Estatais (GDSSSI) |
| Seid Idriss Déby | Diretor-Adjunto da Refinaria do Chade |
| Hissein Idriss Déby | Diretor-Geral da Rahad Chad |
| General Nassouri Idriss Déby | Chefe de Gabinete Particular do Presidente |
| Coronel Kerim Idriss Déby | Coordenador Militar do Ministério das Relações Exteriores |
| General Ahmat Youssouf Mahamat Itno | Vice-Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas |
| Sougour Youssouf Mahamat Itno | Embaixador na África do Sul |
| General Oumar Déby Itno | Diretor-Geral da Reserva Estratégica |
| General Ousman Bahar Mahamat Itno | Comandante das Forças Conjuntas do Chade, África Central e Sudão |
| General Hassan Sendel Mahamat Itno | Conselheiro Especial da Direção de Segurança do Estado (GDSSI) |
| Hamid Hissein Mahamat Itno | Coordenador-Geral de Águas e Florestas |
| Idriss Ibrahim Mahamat Itno | Diretor-Geral do Orçamento do Ministério das Finanças |
| Koubra Hissein Mahamat Itno | Diretora da Gestão de Recursos Hídricos do Chade |
| Haoua Hissein Mahamat Itno | Diretora no Ministério das Telecomunicações |
| Nassour Bahar Mahamat Itno | Primeiro Conselheiro da Embaixada no Canadá |
| Mariam Hissein Mahamat Itno | Diretora de Assuntos Administrativos e Financeiros da Rádio Chade |
| Hamaday Haïga Déby | Diretor Administrativo e Financeiro da SNE |
| Coronel Ousman Kadidja Déby Itno | Coordenador Nacional das Forças de Apoio do Ministério das Finanças |
| Mahamat Haïga Déby | Diretor Financeiro e Administrativo da Corporação de Petróleo e Gás do Chade |
| Coronel Daoud Sendel | Comandante Adjunto da Zona Militar de Amtiman |
| Coronel Seby Sendel Mahamat Itno | Comandante de Regimento da AESB |
| Coronel Sougour Kerim Déby | Diretor-Adjunto da Inteligência Geral |
| Ali Timan Déby Itno | Diretor-Geral do Banco de Habitação |
| Mahamat Timan Déby Itno | Diretor-Geral da Fábrica de Cimento |
| General Sidick Timan Déby Itno | Diretor da Engenharia Militar |
| Abbas Cheno Déby Itno | Governador do Banco dos Estados da África Central (BEAC) |
| Souleymane Ermia Mahamat Itno | Tesoureiro-Geral da República do Chade |
| General Amir Youssouf Mahamat Itno | Comandante das Forças Conjuntas Chade-Sudão |
| Hissein Cheno Déby Itno | Diretor de Interceptações da Agência de Segurança Nacional |








